Minha avó materna tinha sempre os braços abertos para me receber e seu colo era minha proteção. Seu nome, Ignez, significa pura em grego. Ela era assim... Serena, incontestável, única, exclusiva.
Por muitos anos ela foi chamada de “Fofó” porque eu trocava as letras e não conseguia falar “vovó”. Ir visitá-la era um suplício porque viajávamos pela curvilínea estrada Anchieta e eu sentia muito enjoo, mas toda “tortura” da viagem era recompensada quando sentia o cheiro de maresia e chegava perto do prédio de minha avó. Ficava eufórica de pensar que passaria alguns dias pertinho dela.
Quando o elevador parava no 14º andar eu corria para a porta do apartamento, tocava a campainha e esperava ansiosa para ver minha avó. Ela surgia com sorriso gostoso e aquele abraço acolhedor. Todos iam passear pela praia, iam ao cinema ou qualquer outro programa tranquilo, mas eu não ia... Não se minha avó não fosse comigo.
Costumava ficar na praia tomando sol durante uma hora, só para pegar uma corzinha do verão, mas logo corria para pertinho de minha avó que fugia do sol como uma morceguinha. Ao chegar com os pés cheios de areia, sentia no corredor o cheirinho do arroz e feijão que ela preparava com todo carinho. Depois do banho, eu almoçava e grudava na vovó Ignez.
Deitava com ela na cama e escutava suas histórias. A maioria ela inventava na hora e todas as personagens tinham o mesmo nome: Luizinha, meu apelido. Dizia para ela que um dia moraríamos juntas, só eu e ela, porque não aguentava minha mãe falando que eu precisava passear pela cidade... Oras, eu ia visitar minha avó, então era com ela que queria ficar todos os dias e ponto final.
Em certa ocasião cheguei à casa de dona Ignez e deparei-me com seus cabelos roxos. Ela estava envergonhada porque havia errado a tinta (óbvio!), mas eu disse para não se preocupar porque ela estava uma vovó moderna. Bem, minha tentativa de amenizar a situação foi em vão e logo ela conseguiu a cor desejada para seus fios.
A vovó Ignez costumava fazer pipoca para eu comer durante a tarde, era apaixonada pelo Silvio Santos, comprava Tele Sena, adorava anotar as receitas que passavam nos programas femininos, era fascinada por revistas e era corintiana. Na verdade verdadeira, ela torcia para o Corinthians por minha causa, mas também torcia para o São Paulo por causa do meu primo Alexandre e vibrava com a vitória do Santos por causa das filhas.
Minha vózinha ficou viúva duas vezes, mas conseguiu com muita garra criar as três filhas. A vida pregou surpresas na dona Ignez que soube dar a volta por cima com sabedoria e fé, mas não há coração que compreenda a perda de um filho... E foi isso que aconteceu com minha vó. Ela aguentaria esse tranco? Suspeitávamos, mas o tempo confirmou que vivíamos ao lado de uma fortaleza. A vovó Ignez reaprendeu a ser feliz, ainda que incompleta.
Vovó sempre foi muito caseira, e acho que puxei essa característica dela, e sua única diversão antigamente era o bingo, só que a idade foi chegando e o cansaço tomou conta de seu corpo. A vovó passou alguns anos só vendo o mar pela janela do apartamento porque não gostava de sair, então a cabeça foi enfraquecendo. As revistas não faziam mais efeito, os programas femininos foram deixados de lado e quando ficava cinco minutos de pé já reclamava de fadiga (pior que o Jaiminho, carteiro do Chaves).
O apartamento recebeu corrimões adequados para idosos, deixávamos uma bengala pertinho da cama da vovó para ela levantar com mais segurança. Tempos depois nada havia utilidade porque a vó Ignez não conseguia mais sair da cama. Ela perguntava insistentemente pela filha que já havia partido e, por muitas vezes pedi que Deus escolhesse o que fosse melhor para minha vózinha porque não queria vê-la sofrer debilitada pela saúde e pela saudade.
A última vez que encontrei minha avó foi em seu aniversário. Ela desmaiou em meus braços, chamei os paramédicos que cuidaram com zelo de minha avó em casa. Em seguida vivemos dois meses entre idas e vindas ao hospital porque ela era internava um período e depois recebia alta já que não havia o que fazer.
Uma semana antes do meu aniversário ela faleceu. Na madrugada que antecedeu sua partida quis muito ir para praia visitá-la no hospital, mas não fiz isso por respeito a minha mãe. “Luiza, não quero que você veja sua avó sofrer”, ela dizia quando eu falava que ia chegar de surpresa. Dormi com celular e telefone de casa do lado de minha cama porque sabia que minha mãe ligaria pela manhã dizendo que minha avó havia ido para o céu... E foi assim que acordei no dia 29 de junho de 2008.
Desta história com final triste retiro o que há de melhor para levar comigo. Com poucos dias de vida conheci a pessoa que mais amei na vida e tive o privilégio de viver com ela durante 25 anos! Há quem viva décadas e mais décadas sem conseguir dizer “eu te amo” de coração e com brilhos nos olhos. Eu pude dizer para minha vó Ignez que ela sempre foi e será minha maior paixão.
Escrevi este texto quando completou dois anos da partida de dona Ignezinha:
♥ Saudade, vovó ♥
Queria tê-la para sempre comigo. Grudadinha! Seu sorriso, seu carinho, seu mimo...
Acordo e durmo pensando na senhora.
Queria poder contar minhas conquistas, chorar minhas dores, escutar suas histórias, tirar uma sonequinha de tarde segurando sua mão, comer a massa do bolo gostoso que só a senhora sabia preparar, voltar da praia e vê-la cuidando do Pingo de Ouro, achar bonitinha sua felicidade ao assistir Silvio Santos, comprar água de coco fresquinha para hidratá-la e depois voltar ao quiosque só para comermos a carninha juntas, receber orientações para atravessar a avenida da praia (mesmo com 20 e poucos anos), obedecê-la sem questionar, deixar tudo para amanhã para ficar com a senhora hoje, dizer novamente como amo-te!
Nasci para você. Assim Deus quis quando me trouxe de Santa Catarina até Santos.
E continuo, completando hoje dois anos de sua partida, sentindo a dor de não tê-la aqui, mas sabendo que a senhora está me guiando e iluminando meu caminho.
Vovó, obrigada pela nossa história e nosso amor.
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| A bolinha branca sou eu! Minha avó estava encantada com tanta bochecha :) |

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