26.10.10

Capítulo 10 - E tenho dito

Dedico este capítulo a meu pai, carinhosamente chamado por mim de paizinho.

Se fosse por ele não seria uma filha do coração bem resolvida. É um fato. Ele não gosta de conversar sobre isso e respeito sua escolha, mas há seis anos precisei apertá-lo.

No meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da faculdade fiz um documentário sobre adoção com duas amigas. Combinamos que elas viriam até minha casa para gravar depoimentos dos meus pais, pois decidimos que minha história também faria parte do trabalho. Posso dizer que elas são corajosas.

Fiquei enfurnada no meu quarto enquanto a gravação rolava solta na sala. O plano era conversar com minha mãe, depois papear com meu pai e então juntar os dois para fechar com chave de ouro. Digo e repito: amigas corajosas.
 O início foi delicioso para elas. Minha mãe começou o depoimento antes mesmo de me ausentar do local e precisei sair como uma flecha porque ela olhava para minha cara e eu queria chorar. Ela falou tanto, tanto, tanto que não sei como conseguimos editar. Elas deitaram e rolaram com o desembaraço de minha mãe, mas estavam avisadas que meu pai é osso duro de roer quando o assunto é minha adoção. Só que, como eu já disse, elas são corajosas.

Meu pai sentou no sofá em frente à câmera. Elas fizeram a pergunta. Meu pai manteve a cara fechada e não respondeu. Elas aguardaram alguma palavra dele. Ele manteve o silêncio constrangedor. Elas seguiram firmes e fortes com a fera. Talvez estivesse passando o jogo do Corinthians na televisão, talvez ele quisesse tirar uma soneca ou simplesmente estivesse com vontade de terminar o papo de uma vez por todas. A questão é o comentário foi simples e objetivo.
“A Luiza é minha filha independente da maneira como ela chegou”
Tive discussões com meu pai por inúmeros motivos, exceto pela adoção. Este fator não é lembrado por mim e por meus pais nos momentos de fúria. Já nos momentos de descontração fazemos comentários esporádicos. Por exemplo, meu pai vive comentando das minhas pernas grossas e respondo com tom debochado que me livrei de puxar as perninhas de grilo iguais a dele. Coisinhas bobas que não ferem, só divertem.
 Não tinha como não ter meu paizinho por perto. Na infância eu abria o berreiro se ele demorava a chegar em casa e queria imitá-lo em tudo. Vestia o terno dele e fingia que estava chegando do trabalho, queria dormir no mesmo horário que ele (era uma tortura para minha mãe!) e nas férias ficava na praia e quando chegava sexta-feira ficava esperando ansiosa pela chegada de meu pai.
 Nas festinhas infantis minha mãe me vestia com vestidinhos lindíssimos que precisavam dar laços atrás para apertá-los, mas havia um problema. Só meu pai podia amarrá-los. Ficava arrumadinha para festa esperando por sua chegada só para dar o toque final no meu visual. É mol?
 Tenho uma filmagem engraçada do Carnaval de 1988. Percebam:
 Carnaval de 1988. Malu com 05 anos de idade fantasiada de cigana esperando a ida para o bailinho com a turma do prédio.

- Pai, qual cRuPe (eu falava errado!! Risos) nós vamos?

- Paineiras – responde.

Além de falar errada, eu entendia errado.

- Palmeiras??? Nem morta!

Conclusão da história. Corintiana desde sempre. Nasci torcendo pelo Corinthians, mas garanto que teve um empurrãozinho do meu pai que sempre mostrou que torcer para este grande time é garantia de felicidade (pelo menos esportiva, hahaha).

Meus pais decidiram adotar uma menina porque acreditaram que mulher é mais fácil para criar. Não acho que eles estão errados, mas qual homem não gostaria de ter um companheiro para jogar futebol ou tomar uma cerveja? Na falta deste, eu faço as vezes para meu paizinho.

Não tomo cerveja porque detesto bebida alcoólica e não jogo futebol porque sou perna de pau, mas de resto posso garantir que meu pai não sente falta de um filho. Adoro assistir aos jogos do nosso Timão e me divirto mais ainda se vamos ao estádio. Já fui entrevistada pela Globo durante uma partida do Corinthians x Portuguesa sobre os juízes corruptos e passou no Fantástico, fugi de briga de torcida, me enfiei sem querer no meio da Gaviões da Fiel, assisti jogo no Pacaembu só com a torcida preta e branca na arquibancada. Resumindo, quase um moleque. Não posso me esquecer da coleção de carrinhos que mantenho com meu pai. Limpo um por um, tiro pó, enfileiro no armário do escritório do apartamento e costumo comprar novos exemplares.

Filha única e do coração. Vocês devem pensar que meu pai ficou enciumado quando comecei a namorar, não é? Queria eu que ele fosse ciumento, mas que nada. Todas as vezes que encontrava meu namorado tratava como um filho querido.

Meu pai é um homem com coração maior que ele. Fica sem nada, mas dá para os outros. Admiro esta característica tão incomum atualmente na sociedade. Outro dia tinha um filhote recém-nascido de gatinho no deck da piscina do meu prédio e ele não teve dúvida. Pegou o bichinho, levou comigo para o veterinário, comprou milk pet e queria ficar com o felino, mas já temos nossa dupla dinâmica (Deco e Eusébio) em casa, então coloquei para adoção e conseguimos um bom lar para o pobre bichinho abandonado.

Meu pai sempre me ensinou que o valor das pessoas está no coração e creio neste pensamento. Meu paizinho é meu exemplo de vida para aprender o que eu sempre e nunca posso fazer porque ele é uma pessoa intensa e sem meio termo.

Minha paixãozinha, meu amor. Ele é meu único e querido pai com suas lindas qualidades e loucos defeitos. Não poderia ser outro homem corintiano fofinho para ocupar este cargo de confiança de Deus: ser meu pai.


Eu e meu paizinho

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