29.10.10

Capítulo 13 - Maria Luiza & Maria Helena

Há quem ache domingo um tédio. Quem relacione domingo com o programa do Faustão, Fantástico, Pânico na TV. Há aqueles que caem na depressão lembrando o sábado e planejando a segunda-feira. Também há quem reúna a família para saborear uma deliciosa macarronada.

Eu relaciono o domingo com meus avôs paternos que iam almoçar em casa.

As mãos de fada de vó Lena cozinhavam pratos incríveis e sofisticados. O vô Beto usava o bom paladar para escolher um excelente vinho como acompanhamento e os dois juntos paravam na doceira para comprar bombas de creme, roscas doces, bolos e tudo de mais gostoso para mim, uma formiga em forma de ser humano e neta mimada.

Hora de matar a fome e a disposição na mesa nunca mudava. Meu pai na cabeceira, minha mãe sentada de frente para dona Maria Helena e eu sentada de frente para seu Alberto. Ah, eles também trazia o jornal português chamado “Diário de Guimarães”. As conversas giravam em torno das notícias divulgadas nas páginas do periódico (inclusive sobre o obituário) e os acontecimentos de nossas famílias no Brasil e em Portugal. Em certo momento já não sabia do que os adultos estavam falando e aproveitava para atacar a sobremesa.

Fim do almoço. Todos sentavam no sofá para continuar o papo, assistir televisão ou cochilar. Não havia uma única vez que não fizesse a mesma coisa: sentava no chão, perto dos pés da vovó, abraçava as pernas dela e encostava a cabeça em seus joelhos. A vó Lena gostava disso e comentava o quanto eu era carinhosa para ela.

A cada bimestre usava o pretexto dos meus avôs estarem em casa para entregar o boletim da escola que chegava às mãos de meus pais pingando de tanta nota vermelha. Cá entre nós, um vexame intelectual! Jogava o papel no colo de minha mãe e corria para perto de vó Lena.

Era um Deus nos acuda sem fim. Minha mãe me comendo com os olhos e soltando os cachorros nos meus ouvidos, meu pai tentando contornar a situação, a vovó dizendo que aquilo não era o fim do mundo e que ela mesma tirava notas baixas quando era estudante (sabia que era papo furado da vó Lena só para tentar salvar minha pele) e o vovô mudo com cara de paisagem fingindo que o negócio não era com ele, como realmente não era. Domingo em família é uma paz.

A idade foi pesando para meus avôs e o esquema do almoço mudou. Custava para vovó cozinhar, então ficou sob responsabilidade de minha mãe o preparo dos saborosos pratos, mas ainda meus avôs traziam o vinho e sobremesa. O que não mudou mesmo foi minha mania de abraçar as pernocas de dona Maria Helena.


Certo domingo, já demonstrando muito cansaço, vó Lena chegou com um caderninho em branco e pediu que eu acessasse a página do programa da Ana Maria Braga para anotar as receitas que ela ensinara para os espectadores. Naquela época não tinha Google e o Louro José não estava na Globo. Pesquisa lá, pesquisa cá e encontrei a tal página para felicidade da querida vovó. Caprichei na letra para deixar seu caderninho bonito e prometi que faria uma capa para deixá-lo ainda mais charmoso.


“Vovó, passei na faculdade”. Ela sorriu com os olhos, mas não tinha forças para comemorar com alegria minha conquista. Logo foi internada e entrou em coma. Foram dias difíceis para toda família porque a vó Lena era nosso porto seguro (que diria eu e minhas primas na época do boletim), nosso alicerce. Mulher forte, avó amável.


Domingo pela manhã fui com meu pai visitá-la no hospital. Os médicos avisaram que ela não acordaria mais e que sua partida era uma questão de horas e/ou dias. A enfermeira entrou no quarto para trocá-la e ajeitá-la na cama, afim de não criar escaras, então colocou a vovó virada para o lado direito e nesta posição apenas eu ficava de frente para ela, enquanto meu pai e vovô Beto estavam sentados nas poltronas posicionadas do outro lado da cama.


Levantei para fazer carinho na vovó, voltei para o sofá e assim, de repente, pude vê-la abrindo os olhinhos. Com meus olhos cheios de lágrimas me aproximei dela, passei a mão em seu rosto que murmurou meu carinhoso apelido: “Luizinha”. Eu sorri e chorei. Meu pai e meu avô não acreditavam que ela havia voltado e ficaram eufóricos (da maneira discreta deles, lógico). Liguei para minhas tias que achavam que era brincadeira, afinal o médico havia dito que não tínhamos que ter esperança.


Eu, vó Lena e tia Jó (irmã de meu pai) demos as mãos e rezamos Pai Nosso e Ave Maria. Meu maior medo era ela ficar com sono, querer dormir e não acordar mais. Naquela noite ela entrou em coma novamente e faleceu uma semana depois.


Acordei no horário de sua partida sentindo que ela tinha ido para o céu. Enquanto aguardava a hora da despedida daquela que me ensinou o valor da família, liguei o som para me distrair sozinha em casa e lembro que começou a tocar esta música: http://www.youtube.com/watch?v=rppVf1UGbKM.


Neste capítulo contei minha história com meus avôs paternos, mas não comentei sobre adoção. E de fato, não há o que comentar. A vó Lena me amou como neta nascida do coração e de todo seu coração.


A conclusão deste capítulo é dizer para vocês, queridos leitores, que tudo é premeditado por Deus. Assim como estava escrito que eu teria estes pais que são tão bons para mim, eu teria avôs brilhantes que tornaram minha história ainda mais linda.


Não entreguei para vovó Lena a capa que fiz para seu caderno de receitas. Ele está guardado comigo cheio de folhas em branco. Talvez um dia consiga preenchê-lo com receitas saborosas que ela, certamente, gostaria de preparar para seus queridos netos.



Vô Beto, Paizinho, eu (pareço um menino), Vó Lena e mamãe

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